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O conto de fadas de Teliana Pereira

 TelianaTeliana Pereira, orgulho do tênis feminino brasileiro

Do sertão nordestino para as quadras mundo afora. De pegadora de bolinhas a uma das cem melhores jogadoras do circuito, Teliana Pereira acaba de disputar pela primeira vez a chave principal de um Grand Slam e quebra um tabu de quase vinte anos no tênis feminino brasileiro.

Uma vida em busca de um sonho que, mesmo diante de tantas adversidades, já virou uma doce realidade. Sempre com muita luta, garra e perseverança, ingredientes fundamentais na carreira de qualquer atleta que leva o esporte a sério e quer vencer. E vitórias não faltam para a número 1 do Brasil.

Durante a festa que homenageou os melhores tenistas da história do país, Teliana bateu um papo com o Tennis Report sobre sua história, que mais parece um Conto de Fadas, e mostra porque o tênis não deve ser caracterizado como esporte de elite, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Confira!

Você nasceu e viveu até os 7 anos de idade no interior de Pernambuco. Depois se mudou com a família para Curitiba e lá conheceu o tênis. Como foi o começo da sua história no esporte?
Teliana – Meu pai foi tentar a vida em Curitiba sozinho e conseguiu emprego num clube de tênis da cidade. Dois anos depois nossa família toda se mudou pra lá e todos começaram a jogar. Nós somos em sete irmãos e o esporte transformou as nossas vidas.

De uma brincadeira de criança, você virou pegadora de bolinhas, começou a jogar com pessoas do clube e passou a disputar alguns torneios. Quando percebeu que as quadras de Curitiba ficaram pequenas e que era isso que queria pra sua vida?
Teliana – Comecei a jogar com oito anos porque o Didier Rayon me convidou, eu adorava ver meu irmão Renato, que hoje é meu técnico, jogar e até então era só uma brincadeira. Eles me inscreviam nos torneios e lembro que, no primeiro que disputei, eu nem sabia contar! Acabou o jogo e me falaram: "Você ganhou!". E eu: "Nossa, que legal!". Assim fui pegando gosto e com catorze anos percebi que o tênis era algo que eu poderia levar pra vida inteira, que poderia mudar não só o meu destino como o da minha família inteira e até hoje estou aqui, apaixonada pelo esporte.

teliana irmao-2Teliana e o irmão e treinador Renato comemoram o título do ITF de Mont-De-Marsan, na França

Quais os torneios que mais te marcaram ao longo da carreira, tanto por bons resultados quanto pelas adversidades encontradas nas qudras?
Teliana – Lembro muito do meu primeiro torneio, quando eu não sabia contar, e do meu primeiro Roland Garros, aos 15 anos. Tive uma sensação estranha quando cheguei lá, eu estava muito nervosa e não sabia a dimensão daquilo. Tenho ótimas lembranças também do meu primeiro torneio WTA, em Bogotá. E também de torneios onde não tive um bom desempenho e passei por momentos muito difíceis como o que disputei na Bulgária e o juvenil no Peru, onde eu estava sem material e tive que pedir emprestado.

Há 20 anos o tênis feminino não tinha uma representante no Top 100 e a última a disputar um Grand Slam foi Andrea (Dadá) Vieira, no US Open em 1993. Qual é a sensação de estar entre as cem melhores do mundo, ter entrado direto na chave principal do Australian Open e quebrar esse tabu?
Teliana – É incrível. Fiz toda a preparação pensando não somente no Australian Open como também nos torneios anteriores. Mas, no fundo, eu estava muito focada no meu primeiro Grand Slam. Coloquei na cabeça que eu precisava curtir ao máximo, independentemente do que acontecesse. E curti muito! Dei sorte, entrei nas duplas de última hora e foi inesquecível. Espero jogar ainda mais pois o objetivo é estar nas chaves principais dos Grand Slams este ano, mas sem dúvida o Australian Open teve um gostinho especial!

O sorteio das chaves do Australian Open não foi muito favorável e logo na estreia você enfrentou a russa Anastasia Pavlyuchenkova. Esperava enfrentar uma tenista cabeça-de-chave logo na primeira rodada?
Teliana – Eu estava preparada pra tudo! Ao mesmo tempo que queria enfrentar uma tenista como ela, pelo fato de nunca ter jogado contra uma top, também pensava que poderia pegar uma menina um pouco mais tranquila pra seguir mais adiante na disputa. Foi incrível! Anastasia já foi número 13 do mundo e foi um jogo duro, tive set points e foi importante pois saí da quadra muito confiante e com a certeza de que estou no caminho certo.

teliana aus-2Teliana em treino no Melbourne Park

Depois de ganhar a medalha de bronze nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, você sofreu uma série de lesões em 2007, se afastou das quadras por alguns meses em 2008 e passou por duas cirurgias no joelho em 2009. Como foi esse período pra você?
Teliana – Foi muito difícil porque primeiro machuquei o ombro e fiquei uns quatro meses afastada. Voltei a jogar no começo de 2009 e, no meu último torneio nos Estados Unidos, machuquei o joelho numa bola muito boba e não sabia da gravidade. O médico deu duas sugestões: cirurgia ou método conservador. Claro que optei pela segunda opção, mas ainda sentia muitas dores e não conseguia ficar por mais de dez minutos na quadra. Fiz a cirurgia de menisco pensando em voltar quatro meses depois porque é algo tranquilo. Voltei, mas foi impossível e passei pela segunda cirurgia. E assim perdi tempo e todo meu ranking. Foi um ano bem difícil, precisei muito da ajuda da minha família e do meu namorado. Alguns dias eu acordava e não queria fazer nada porque só fazia fisioterapia o dia inteiro.

Em março de 2012 você e a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) romperam a parceria. O que motivou essa decisão?
Teliana – Esse é um assunto complicado porque muita gente diz muita coisa e não dá pra saber o real motivo do rompimento. Eles alegaram que eu não tinha comprometimento com o tênis, algo que eu sempre tive, então é um motivo que eles não poderiam considerar pois sempre fui extremamente dedicada. Eu fiquei chateada, houve um atrito, mas hoje eles estão me apoiando e graças a isso estou viajando acompanhada e não mais sozinha, o que era muito difícil pois o tênis é um esporte cruel, onde você passa muito tempo longe da família e dos amigos, e vive culturas diferentes. Hoje estou bem, viajo com meu irmão ou com o Alexandre, que sempre me dá uma força.

Além de treinar, competir e viajar pelo mundo, você também tem um blog, onde conta um pouquinho de suas experiências aos fãs. Como é esse dia-dia e qual a importância do papel de “blogueira” em sua vida?
Teliana – O mais importante é passar para as pessoas as minhas experiências e o que estou vivendo. Considero minha história incrível por tudo o que meus pais, meus irmãos e eu passamos. Trabalhei pouco em Pernambuco, mas meu irmão trabalhou bastante na roça e todos nós passamos por muitas dificuldades. É importante contar isso pois quem não está ali, não sabe exatamente o que acontece. Então passar isso adiante não só no blog, mas também nas redes sociais é muito legal e faz com que o público conheça e acompanhe o nosso dia-dia. Eu sei porque também admiro e gosto de acompanhar muita gente, além de trocar experiências.

Você foi selecionada pela Fundação Little Dreams, do cantor britânico Phil Collins, e teve como padrinhos Roger Federer e Amelie Mauresmo. Como é o trabalho realizado na Fundação e como foi a experiência?
Teliana – A iniciativa foi do Didier, meu ex-técnico, que sempre buscou o melhor pra minha carreira. A Nathalie Tauziat ia jogar um torneio nos Estados Unidos e ele foi atrás dela para que ela me ajudasse de alguma maneira, mesmo que fosse só pra assistir e ver como funcionava um torneio profissional. Ela se encantou com a minha história e me levou para um torneio WTA em Nice, na França, onde acompanhei todos os treinos e jogos. Depois disso passei a fazer parte da Fundação e lá recebi o apoio de grandes nomes do tênis como Boris Becker, Roger Federer e muitos outros.

Quem é sua inspiração no tênis?
Teliana – Hoje, o Rafael Nadal. Sou fã número 1. Se eu pudesse ter um pouquinho da força mental dele seria ótimo. Mas antes dele, não podemos deixar de lado o Guga. São os dois que eu mais admiro. O Guga é a pessoa mais simples e carismática do mundo. Depois de tudo que fez e conquistou, ele consegue ser uma pessoa simples e isso é admirável. Mas antes de entrar em quadra eu sempre vejo alguns vídeos do Nadal e já entro na quadra pulando (rs)!

teliana nadalTeliana e Rafael Nadal em Roland Garros. Ela também tieta!

E entre as mulheres?
Teliana – Gosto muito de ver a Victoria Azarenka jogar, adoro o estilo e a personalidade forte dela. Mas quem eu acompanho mesmo é o Nadal (rs)!

Quais suas expectativas pra primeira edição do Rio Open que, além de um ATP 500, também terá um WTA International?
Teliana – As melhores possíveis! Quero jogar bem, acho que isso é o mais importante. Vai ser uma experiência diferente porque joguei pouco no Brasil, estou mais acostumada a jogar fora, em especial na França, que é um país que eu adoro. Quero ter bons resultados e curtir ao máximo. Espero que todos possam ir lá torcer pra gente porque faz muita diferença. Depois vou para Floripa (Brasil Tennis Cup) também. Espero jogar meu melhor tênis.

Moda, estilo e conforto são fundamentais no tênis. O que você gosta de usar dentro e fora da quadra? Você é uma tenista vaidosa?
Teliana – Não me considero tão vaidosa, mas acho bonito uma mulher estar bem arrumada. Quando entro na quadra gosto de vestir uma roupa perfeita: saia, regatinha e gosto muito de tênis, principalmente daqueles bem chamativos. Fora da quadra sou básica, mas quando tenho que me arrumar eu amo! É um momento diferente, mais mulherzinha, porque eu passo o dia inteiro de tênis, shorts e camiseta, então quando posso me arrumar eu adoro e gosto muito de ir no salão fazer o cabelo. Confesso que um tempo atrás eu não era nada vaidosa. Hoje em dia gosto de me arrumar, talvez porque eu esteja ficando mais velha, então estou dando mais valor a isso. Nã sou fã de salto alto, mas acho lindo, admiro e quando posso eu coloco sim!

Mesmo com tudo que já viveu, você ainda tem muito pela frente. Quais os próximos capítulos desse “conto de fadas”, como você mesma costuma dizer?
Teliana – É isso: um conto de fadas! Minha mãe sempre fala: “Filha, isso tudo é mentira”. Eu digo: “Mãe, realmente!”. Tudo que aconteceu comigo eu gostaria que tivesse acontecido também com as pessoas do lugar de onde eu vim porque a vida lá é muito dura. Eles não têm futuro. Se eu estivesse lá ainda hoje estaria casada com muitos filhos, afinal eu tenho sete irmãos e a cultura lá é essa. Agradeço muito a Deus porque tem uma mãozinha dele aí. E também ao Didier que foi quem nos acolheu e é um segundo pai pra mim pois convivi mais com ele do que com o meu próprio pai. Tudo que eu sei hoje foi ele quem me ensinou. Espero que essa história continue ainda por muito tempo.

O conto de fadas está longe de acabar, Teliana. E torcida não vai faltar!

Veja a entrevista completa também em vídeo em nosso canal no YouTube:

Agradecimentos: ASICS, XYZLIVE e TV Tenista www.tvtenista.com.br
Fotos: Divulgação e Arquivo Pessoal

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