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Tênis, a paixão secreta de Gabriel García Márquez

garcia marquezGabriel García Márquez no "Real Club de Tenis de Barcelona" (Foto: Francesc Bedmar)

Por Gustavo Tatis Guerra

"Havia um lugar onde Gabriel García Márquez se sentia menos sozinho e mais feliz: na quadra de tênis. Nesta quadra, perto da piscina do Hotel Hilton Cartagena, o escritor esteve nos últimos quinze anos e se sentia como qualquer mortal que percorre os corredores de um hotel, sem ninguém interromper seu jogo.

Chegava cedo, sempre com sua raquete de tênis na mão, em seu horário secreto: seis horas da manhã. Mas quando queria sentir o sol, jogava às nove. E se era impossível durante o dia, às sete da noite lá estava ele com a raquete verde, de grafite. Todo vestido de branco, impecável, com shorts, suéter e um par de tênis, acompanhado por Rafael, seu motorista.

Nesse clima de paz da quadra de tênis, onde muitas vezes o silêncio somente era interrompido pelas ondas do mar, García Márquez se esquecia de sua esmagadora fama por aproximadamente quarenta minutos. O esporte então se transformou em um grande prazer e uma grande paixão na vida do escritor.

Pouco antes de completar oitenta anos, levava em suas viagens para Cartagena a raquete verde para jogar tênis na quadra do Hilton. Mas não pude bater uma bolinha com ele desta vez, porque estava com um problema no joelho. Então ele chamou o treinador de tênis Wilson Alvarez, com quem jogou nos últimos quinze anos.

García Márquez começou a jogar tênis por recomendação médica e o esporte se tornou uma paixão secreta. No início fazia caminhadas às seis da manhã, mas a falta de privacidade nos lugares públicos se tornou um problema. As pessoas o paravam nas ruas e isso não fazia bem a sua saúde que, em nenhum momento foi ameaçada, a não ser em 1992 quando retirou um tumor do pulmão direito e perdeu catorze por cento da capacidade respiratória.

Desde então, com a mesma disciplina implacável de sua vida de escritor, uma nova rotina foi estabelecida: jogar tênis. Por um tempo ele evitou a exposição ao sol após a cirurgia de retirada de uma pinta na ponta direita do bigode. "Comecei a jogar tênis no momento em que soube que ia morrer", confessou ao jornalista Jorge Garcia numa atitude imprudente ao perceber que ele estava assistindo ao jogo. Mas essa foi somente mais uma das suas respostas inesperadas.

Wilson Alvarez ainda não tinha quinze anos quando García Márquez o escolheu como seu treinador. Wilson começou na quadra como pegador de bola e logo se tornou jogador. Assim conheceu o escritor e "começamos a jogar tênis muito cedo. Isso foi em 1992. Quarenta minutos por dia. Ele sempre ficava no centro da quadra. Inicialmente, García Márquez corria muito e se movimentava com uma força impressionante. Com o passar dos anos, nós reduzimos a intensidade e, cerca de quatro anos atrás, os movimentos se tornaram mais suaves. Eu nunca tive um aluno como ele, com tanta força e disposição para jogar com aquela idade. Em 2007, pouco antes da homenagem que fizeram a ele no Centro de Convenções, ele me ligou dizendo que jogaríamos em breve porque ele passaria um bom tempo em Cartagena, mas que ainda não poderia porque havia lesionado o joelho e também estava muito ocupado. Ele estava muito assíduo e disciplinado no tênis. Certa vez cheguei ao hotel um pouco mais tarde, quando nosso jogo era às seis da manhã e ele me repreendeu, me perguntou por que estava atrasado. Disse que tive problemas de transporte e ele respondeu: por que você não pegou um táxi que eu te pagaria chegando aqui? Ele até propôs que seu motorista, na época o Sr. Chepe, me buscasse para evitar atrasos. Aconteceu de novo. Então mudamos o horário: nove da manhã e também à noite, às vezes. A maior dificuldade dele era o saque: desde levantar a bola com o toss, acertar o ponto da raquete e colocá-la dentro do quadrado. Mas ele tinha algo fundamental para o tênis: o poder de se movimentar, controlar as emoções e também a boa condição física. Ele gostava de trocar seis, sete e até mais bolas numa jogada. Certa vez ele apareceu com uns sapatos de couro branco, impróprios para o tênis e o gerente do hotel lhe disse assim que entrou na quadra: ‘Prêmio Nobel, o senhor não pode jogar com esses sapatos’. O famoso escritor então foi buscar o par de tênis brancos”.

Muitas vezes, jogar tênis era uma desculpa para García Márques se encontrar com amigos e sentar-se com eles no final do jogo. Em um desses encontros surgiu a “Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano” (Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano). Muitas das reuniões aconteciam na beira da quadra, onde ele sempre tomava um vinho ou um suco de limão.

Mas, entre os escritores, não só García Márquez tinha essa paixão pelo tênis. O crítico literário americano Seymour Menton, nascido no mesmo dia e no mesmo ano que García Márquez, não parou de jogar tênis ou viajar ao redor do mundo. Mario Vargas Llosa também joga tênis para manter a forma e desafiar o envelhecimento. O poeta americano James Agge escolheu o esporte como uma alternativa para entrar em forma e ter uma vida saudável. Nem mesmo o regime militar, imposto pouco antes de sua morte, o afastou das quadras: Agge jogava um ou dois sets todas as manhãs antes do café e pelo menos dois sets à noite depois do trabalho.

Quando García Márquez era criança em Aracataca jogou beisebol com bolas de pano e futebol na rua com seu amigo Luis Carmelo Correa. Tudo era precário e ao ar livre. Havia apenas uma quadra de tênis no acampamento da empresa “United Fruit Company” e os gringos eram os únicos que praticavam o esporte por ali.

"Eu vi García Márquez jogar por quatro temporadas", disse o tenista Néstor Raúl Ángel Romero, que há oito anos é treinador no Hilton Cartagena e o homem que organiza dois torneios de tênis por ano na cidade. "Dos idosos que vêm para jogar tênis no hotel, ele era um caso à parte, um exemplo de vida. Não acho que uma pessoa escolhe o tênis só para ficar em forma. Tem que gostar muito para entrar em uma quadra, onde jogam alunos e veteranos. A disputa é intensa, dramática do início ao fim. A raquete que ele usava não é de um amador, mas de um jogador profissional".

"García Márquez era um homem muito bom para todos nós que trabalhamos na quadra de tênis", disse Nerio Rodriguez. A mesma opinião tem Luis Carlos Acosta, jogador profissional. "Ao sair da quadra lhe pedi um autógrafo, mas cometi o erro de não levar um de seus livros e sim um pedaço de papel. García Márquez disse que não era bom assinar papéis em branco, mas concordou em tirar uma foto com a gente".

Segundo o seu último treinador, o escritor era uma boa pessoa. “Ele me deu todos os seus livros autografados. O único que li foi “Ninguém escreve ao Coronel”, quando estava na escola. Quero começar “Cem Anos de Solidão”. Um dia eu perguntei a ele até quantos anos pensava em escrever e ele me respondeu que até os cem".

"Acho que ele escolheu o tênis porque é uma outra maneira de caminhar no ritmo da batida da bola e exercitar os reflexos", disse seu irmão Jaime García Márquez. "Buscar a bola levava Gabo (como era carinhosamente chamado) a um esforço adicional ao de apenas caminhar. Havia neste homem que levantava sua raquete, um ser que desafiava o tempo com a sua imaginação”.

García Márquez nunca passava despercebido ao sair da quadra de tênis. Certa vez, no Clube Cartagena, uma senhora desbocada que se sentou ao lado dele, reparou em seus sapatos e disse: "Você pode ser Prêmio Nobel, mas está muito mal vestido". "Como assim?", perguntou o escritor. "Esses sapatos não podem ser usados sem meias", disse ela. "Minha senhora, esses sapatos são muito finos, são de pele de cobra", disse ele rindo. A resposta sem precedentes e irreverente da senhora confundiu o escritor: "Eles podem ser de pele descascada, mas ainda assim você está mal vestido". O escritor se levantou imediatamente e disse: "Vou colocar a senhora em um de meus romances."

Por muito tempo, García Márquez burlou a imprensa curiosa e um fotógrafo que fez papel de idiota ao tentar jogar tênis só para capturar os seus movimentos em quadra. Ao perceber, o escritor disse "não" em um gesto com a mão para evitar a câmera. Mesmo assim, chegou incólume e sorridente, conseguiu viver nos últimos quarenta anos com certa privacidade, muitas vezes, sem perder seu senso comum e graça natural.

Em novembro de 2005 foi a última vez que o treinador jogou tênis com García Márquez. Ele acredita que o escritor tenha vivido até essa idade graças ao esporte. Ao deixar a quadra, já nos corredores do hotel em direção à rua, um curioso para e pergunta, como se visse um fantasma: “É García Márquez?”. “Parece ótimo”, diz uma mulher. “O que você faz para ficar assim tão bem?”, pergunta. “Jogo tênis”, diz ele com graça e facilidade.

 

* Transcrição da crônica escrita pelo jornalista colombiano Gustavo Tatis Guerra, publicada no site www.eluniversal.com.co, com depoimentos do treinador Wilson Alvarez

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