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A credencial de Feijão

feijãoJoão "Feijão" Souza: provável escolha de número 2 do Brasil na Copa Davis. Crédito: AGIF/Divulgação Rio Open

Por Matheus Martins Fontes

A vida de um capitão de Copa Davis não é fácil, uma vez que cabe a ele responsabilidades que pouquíssimos técnicos querem arcar. Primeiramente deve observar a grande maioria dos jogadores de sua nação ao longo da temporada. Depois, analisa os pontos fortes e as vulnerabilidades de cada um, pondera detalhe a detalhe junto com a comissão técnica para, em última instância, determinar os escolhidos para um confronto.

Mas não é somente o desempenho dentro de quadra que serve de critério para um jogador ser chamado a representar o país na Copa Davis. Comprometimento, foco e clima de equipe também são pré-requisitos desejados por muitos capitães e por isso, em algumas situações, tenistas com melhor ranking acabam preteridos.

No ano passado, o comandante brasileiro João Zwetsch sofreu inúmeras críticas por não ter chamado João Souza, o Feijão, para a repescagem do Grupo Mundial contra a Espanha. O paulista vinha de ótima série de resultados em Challengers, além de um partida dura contra a sensação Dominic Thiem no ATP de Kitzbuhel, mas acabou vendo o capitão escolher Rogério Dutra Silva para o lugar. Antes mesmo do início do confronto, Zwetsch foi praticamente intimado a esclarecer por que preferiu Rogerinho.

Critérios

 Em primeiro lugar, lembrou o aspecto físico, citando a vitória de Rogério contra o canadense Vasek Pospisil no US Open de 2013, em mais de 4h, como prova de que o escolhido suportaria jogos longos. Feijão, em sua opinião, não tinha o convencido se aguentaria uma partida em melhor de cinco sets, embora o paulista tivesse disputado longas maratonas na boa série nos Challengers europeus.

O segundo motivo remontava ao fato de que ele, João, não enxergava Feijão em um nível acima do que Rogerinho e Clezar estavam jogando. “Fazer semifinal em três, quatro Challengers é bom, mas vencer um ou dois torneios seria a prova de que ele [Feijão] está em outro nível”, explicava Zwetsch. Finalmente, a terceira razão para que o capitão optasse por Rogério se desenhava pela grande atuação contra o Equador no Zonal fora de casa, em que venceu os dois pontos de simples.

Dentro de quadra contra o desfalcado time espanhol, os brasileiros acabaram levando a melhor graças aos dois pontos salvadores de Thomaz Bellucci nas simples, só que os tais critérios de escolha de Zwetsch não passaram ilesos, principalmente por Rogerinho ter levado uma surra no jogo contra Roberto Bautista-Agut. Dessa forma, o mistério sobre o número 2 de simples brasileiro se mantém para a eliminatória contra a Argentina entre 6, 7 e 8 de março, mas, diante do que tem se visto nesses dois primeiros meses de tênis, não haverá grandes polêmicas dessa vez.

 O bom papo

Em entrevista ao Tennis Report, Zwetsch reiterou que costuma sempre conversar com quem é chamado com certa frequência na Copa Davis, daí entram Bellucci, Marcelo Melo e Bruno Soares, assim como procura os possíveis nomes para a segunda vaga de simples. Nesse grupo, entram claramente Clezar, Rogerinho e Feijão, os únicos que têm bola e bagagem para brigar momentaneamente por esse espaço.

A partir desse bate papo com nossa reportagem, sem querer dizer, mas já dizendo, Zwetsch sinalizou ter conversado com Feijão nos bastidores e o atleta também confirmou o contato, além de falar abertamente sobre a possibilidade de "jogar pela primeira vez a competição fora de casa". Vale lembrar: em 2012, Feijão jogou como titular no confronto diante da Colômbia pelo Zonal em São José do Rio Preto. O que podemos comentar é que, se Zwetsch mantiver os critérios de convocação, ele certamente não ficará fora diante da Argentina.

Inquestionável

Na questão física, o paulista está mais “seco”, em forma e mais ágil em quadra, aguentando bem as longas trocas de bola quando precisa se mexer para os lados e também correr para a frente. No aspecto mental, e isso faz grande diferença num confronto de Copa Davis, Feijão tem aparentado maturidade tanto para ler melhor suas ações durante as partidas quanto para se perdoar diante dos erros e das chances desperdiçadas. Não há exemplo melhor do que as oitavas de final no Rio Open ontem em que, com match point, o paulista errou voleio facílimo no tiebreak do segundo set, permitindo a reação e o empate do esloveno Blaz Rola. Mas aparentando equilíbrio, capacidade que não se vê num jogador todo dia, Feijão remou novamente (saiu de desvantagem de 4/3 com quebra) e conquistou um triunfo importantíssimo para sua confiança.

O primor tático também é outra arma visível no jogo dele. Em várias vezes o paulista entendeu que para ser bem-sucedido não seria necessário muito mais do que o “feijão com arroz” no bom trocadilho. Um bom saque, uma boa direita para deslocar o rival e outro forehand para definir do lado vazio fizeram, e sempre fazem muito estrago. Até o backhand, tão contestado, está mais firme e não aparenta ser mais o ponto fraco como antes.

E se não há motivos suficientes para ainda convencer Zwetsch, os resultados de Feijão em 2015 definitivamente não dão margem para dúvidas. Semifinal do Brasil Open, batendo inclusive Leonardo Mayer, provável titular no time argentino, oitavas de final em Doha, finalista de duplas em Quito e, por enquanto, quartas de final do Rio Open, um torneio de nível ATP 500. Nem Bellucci, nosso número 1, fez melhor neste nível.

Por falar nisso, há reais chances de Feijão se tornar número 1 do País nas próximas semanas pelas quedas prematuras de Thomaz em São Paulo e Rio. Por essas e outras, o nome do paulista deve constar na prancheta de Zwetsch. É claro que os pupilos do capitão verde-amarelo terão mais alguns testes pela frente, entre eles o ATP de Buenos Aires como prévia do confronto. Mas, jogando nesse nível, a possível convocação de Feijão não é mais encarada como algo do tipo “mesmo-com-ele-o-Brasil-não-ganha”, mas pipoca como importante opção para uma vitória histórica e não impossível de ser concretizada.

Aqui não importa se eles têm seis top 100 em simples e nós, dois. É irrelevante, na opinião de um colega de imprensa argentino: “tanto Bellucci quanto Feijão ganham do nosso número 1”. Sem Juan Martin Del Potro, os anfitriões temem o pior, porque seu grupo é numeroso, mas possivelmente batível. E o Brasil, com Feijão, credencia-se como uma equipe perigosíssima, mesmo com poucas opções no banco.

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