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Refém do corpo

cópia de bellucci-2Thomaz Bellucci e o fantasma do "apagão" (Foto: Marcello Zambrana/Divulgação)

Por Matheus Martins Fontes, de São Paulo

Na última quinta-feira, Thomaz Bellucci mais uma vez decepcionou em frente a sua torcida ao perder na estreia do Brasil Open. Mesmo saindo como cabeça de chave 2 do evento em São Paulo, ele sucumbiu diante do espanhol Roberto Carballes Baena, de virada, por 2 sets a 1. Pelo segundo ano seguido, o número 1 do Brasil em simples não avança uma rodada sequer no evento.

No que se pôde observar, Bellucci sofreu muito mais com o calor das 15h do que com o adversário quase 100 posições atrás no ranking da ATP. Após a partida, o canhoto confessou que provavelmente teria fechado o duelo sem problemas em dias normais, mas a questão física tem o atrapalhado principalmente em tais condições.

“Fisicamente, eu não consigo manter a intensidade, tenho um peso muito grande no corpo. No terceiro set, comecei a ter cãibras. Não sei o que acontece, a gente está tentando uma solução para manter uma intensidade razoável. Se conseguisse manter uma intensidade alta, jogando bem, eu não teria 5 a 10 derrotas, meu ranking seria outro, meu jogo seria outro, minha atitude seria outra. Infelizmente não consigo manter a intensidade, meu nível de jogo cai de 100 para 0 e qualquer um que está do outro lado consegue me vencer”, lamentou Bellucci.

As palavras do paulista são preocupantes. O problema revelado na rapidíssima coletiva – foram menos de quatro minutos de conversa com a imprensa – não é novidade nenhuma para quem cobre tênis diariamente. Em 2012, o canhoto admitiu tentar resolver um problema fisiológico que causava uma queda acentuada de rendimento durante os jogos mais longos e sob altas temperaturas.

Para um jogador do nível de Bellucci, que já foi 21o do mundo em 2011 e integra hoje o top 40 da ATP, essas limitações em partidas que se arrastam por horas contra adversários do mesmo ou até de um patamar acima escancaram também fraquezas mentais. No jogo contra Carballes Baena, por exemplo, a primeira parte do confronto foi tranquila para o brasileiro, que parecia, de fato, caminhar ao triunfo quando estava se sentindo bem. O problema é quando aparece o “apagão”.

cópia de bellucci 1-2"Infelizmente não consigo manter a intensidade, meu nível de jogo cai de 100 para 0 e qualquer um que está do outro lado consegue me vencer” (Foto: Marcello Zambrana/Divulgação)

Nessas horas, de nada adianta ter golpes mais potentes, melhor saque, mais profundidade nas bolas – Bellucci leva vantagem contra o espanhol em todas essas características -, se não conseguir manter a intensidade alta por tanto tempo. Thomaz ainda ficou em quadra tentando jogadas de saque e voleio obviamente para encurtar os pontos. Daí fica complicado manter um equilíbrio emocional quando se sabe que o corpo já não responde.

Para piorar, na maioria das vezes o próprio público não compreende o que acontece em quadra e acaba mais criticando do que abraçando o atleta. Em São Paulo, Bellucci já tinha passado por isso em 2012 quando foi vaiado pelos paulistanos ao se arrastar na semifinal diante do italiano Filippo Volandri, outro que o brasileiro, em dias normais, teria derrotado em sets diretos.

Dessa vez, não houve vaias, mas ficou um ar de preocupação. Em primeiro lugar, porque se achava que Bellucci e equipe já tinham solucionado o problema. E outra, porque o pupilo de João Zwetsch já está com 28 anos. Apesar de haver exemplos de vários jogadores atuando em alto nível acima dos 30, não é fácil cuidar do corpo depois de uma certa idade. No caso de Thomaz, então, deve ser ainda mais complicado, pois já há um precedente.

É impossível cravar o que irá acontecer com Bellucci daqui para frente, porém ele deve estar com uma pulga atrás da orelha novamente ao se deparar com esses problemas. Mais do que nunca, o canhoto quer resolver isso logo, pois hoje em dia ninguém se estabiliza no grupo dos melhores do mundo com um físico avariado. Seria muito melhor se houvesse algum conterrâneo do mesmo patamar para “dividir” a pressão nessas horas. Mas como a resposta é negativa, Thomaz terá que ter paciência para aguentar as críticas de todos os lados e seguir em frente. Mais uma vez.

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