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A gangorra traiçoeira de Melo/Soares

MeloSoaresBruno Soares e Marcelo Melo entre os dez melhores do mundo no ranking de duplas da ATP

Por Matheus Martins Fontes, de São Paulo

No ranking da ATP, o Brasil está muito bem representado no top 10 de duplas. Marcelo Melo é o atual número 1 do mundo após um 2015 espetacular em que conquistou quatro troféus, incluindo o de Roland Garros. Já Bruno Soares, 10º do mundo, começou com tudo essa temporada faturando o Australian Open nas duplas e duplas mistas. Logo quem não acompanha de perto o circuito já coloca a dupla mineira como ampla favorita para o ouro nos Jogos Olímpicos do Rio.

Por isso é normal vermos fãs e até amigos da imprensa que não cobrem tênis diariamente questionarem: “Por que os dois não jogam juntos no circuito?”. Isso já aconteceu. Entre 2010 e 2011, Melo e Soares dividiram o mesmo lado da quadra, mas não obtiveram os resultados esperados e resolveram terminar a parceria.

Desde então, os ex-parceiros só se juntam esporadicamente em torneios onde os companheiros fixos não estão jogando, e, é claro, sempre nos confrontos de Copa Davis. Na competição entre países, Melo e Soares têm retrospecto invejável, com direito a vitória sobre os irmãos Bryan dentro dos Estados Unidos. Tudo isso faz com que os brasileiros entrem em todo torneio com a “obrigação” de ganhar. Qualquer resultado fora disso, seja em Grand Slam, Masters 1000 ou nos ATPs 500 e 250, é encarado como decepção. Ou como ouvi muito em São Paulo, durante o Brasil Open, um “fracasso”.

MeloSoares2Melo e Soares, dupla olímpica brasileira

Essa visão ainda bastante “futebolística” que torcedores e colegas de profissão transferem para o tênis, por causa da excelente fase de Melo e Soares separadamente, é muito perigosa pensando em preparação olímpica. Ora, então quer dizer que vencer os eventos os colocam como favoritíssimos ao ouro no Rio, mas por outro lado não fizeram mais que o esperado? Pior, então qualquer revés, por méritos dos adversários ou até por um dia atípico dos mineiros, é sinônimo de vexame? Calma lá!

Cotados ao ouro nos Jogos Olímpicos, Bruno e Marcelo, de fato, são, pelo currículo e a experiência que têm juntos. Mas os sete dias na Cidade Maravilhosa serão totalmente diferentes do que as outras 51 semanas do ano. Além de juntar duplistas natos de mesma nacionalidade, que podem coincidentemente atuar juntos no circuito, a Olimpíada também reune jogadores de simples, o que deixará a disputa ainda mais imprevisível.

Certamente Novak Djokovic, Roger Federer, Rafael Nadal e Andy Murray estarão na chave do Rio. Apesar de não serem especialistas na modalidade, podem fazer a diferença em um dia inspirado, ou se Melo/Soares não estiver num bom dia, como aconteceu no Rio Open e Brasil Open. E apenas para finalizar o raciocínio, das últimas três Olimpíadas, só em Londres/2012 (Bob e Mike Bryan) tivemos duplistas propriamente ditos campeões. Em Atenas/2004, os chilenos Nicolas Massu e Fernando Gonzalez ganharam a disputa apostando no jogo do fundo de quadra, e quatro anos mais tarde Federer e Stan Wawrinka ficaram no lugar mais alto do pódio.

MeloSoares3Melo/Soares derrotados por Guillermo Duran/Andrés Molteni, por 2 sets a 1, parciais de 6/1, 2/6 e 10/8, nas quartas de final do Brasil Open

Nessa linha, o que podemos concluir? Colocar Melo e Soares como candidatos a uma medalha dourada é dever de qualquer jornalista. Os próprios mineiros não fogem da raia e se cobram naturalmente por isso, principalmente após dois reveses inesperados como os na gira pelo Brasil. Agora falar que a parceria tem a “obrigação” de levar a medalha dourada, ou que ambos chegam em baixa por causa de uma ou duas derrotas ali, é um pré-conceito bastante vago.

Esses resultados não os deixam menos favoritos para a Olimpíada, da mesma forma que títulos no Rio e São Paulo não os tornariam mais favoritos, pois muitas variáveis entram na jogada. O piso e a bola serão diferentes na Olimpíada, as partidas não terão match tiebreak no terceiro set e contarão com a volta da vantagem nos games de 40 iguais. Querendo ou não, são muitos percalços até uma possível medalha, que, independentemente da cor, já seria inédita. Mas no Brasil, enquanto a teoria do “8 ou 80” prevalecer, parece que nunca será bom o suficiente.

Fotos: Leandro Martins/DGW Comunicação 

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