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Um bate-papo com Adriano Ferreira

adriano ferreiraAdriano Ferreira

Ele venceu Guga Kuerten em 1998 e ainda pediu um autógrafo ao amigo no final da partida. A vitória sobre o campeão de Roland Garros definitivamente mudou a vida de Adriano Ferreira, que ganhou a primeira raquete aos 7 anos de idade e conheceu o tênis nas quadras de Bebedouro, pequena cidade do interior de São Paulo. 

Considerado o melhor juvenil do país e o segundo do mundo, Adriano ganhou o primeiro torneio aos 18 anos, fez parte da equipe brasileira na Copa Davis e também se destacou como duplista, mas uma lesão no ombro obrigou o atleta a "pendurar a raquete". 

Num papo descontraído, ele contou ao Tennis Report um pouco de sua trajetória nas quadras e da experiência como treinador de Thomaz Bellucci, Ricardo Mello e Flávio Saretta. Confira!

Como o tênis surgiu em sua vida? 

Adriano - Um tio muito querido, que já não está mais aqui, me levou pra conhecer o esporte. Mais do que isso, ele foi o meu primeiro incentivador.

Quais eram seus ídolos na infância? Algum, em especial, te inspirou?

Adriano - O primeiro foi José Amin Daher, um ex-jogador de Barretos, que era profissional quando eu tinha uns 12 anos. Eu sempre ia pra lá treinar, viajava 50km todos os dias de ônibus, e como eu achava que ele podia estar lá e que bateria uma bola comigo, aqueles 100 km diários eram fichinha pra mim. Depois comecei a jogar os torneios maiores e cruzar com diversos outros tenistas conhecidos. Jaime Oncins era o que mais me impressionava.

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No Brasil é difícil encontrar incentivadores e patrocinadores. Como foi pra você?

Adriano - Eu não posso reclamar de não ter tido incentivo, o que não se compara com as "boiadas” que essa molecada tem hoje. Essa é a primeira e mais esfarrapada desculpa que alguém pode dar pra não seguir lutando. Concordo que a coisa poderia ser bem mais organizada, o dinheiro melhor investido, os melhores estarem ocupando os principais postos, mas este é um assunto pra dias.

Você venceu o primeiro campeonato profissional aos 18 anos. Como foi a experiência de ser o tenista brasileiro mais jovem a ganhar um torneio e a que você atribui essa importante conquista?

Adriano - Eu jogava muito bem como juvenil, tinha um nível de confiança altíssimo, sempre que ia para um torneio profissional, achava que podia ir longe, que iria surpreender alguém. Esse título foi justamente em Barretos, numa etapa de um torneio-satélite, hoje conhecido como Future. Minha família e algumas pessoas importantes na minha vida estavam lá.

Além desse, quais foram os momentos mais marcantes de sua carreira?

Adriano - São muitos! A vitória sobre o Guga foi o mais marcante, mas quando entrei em Roland Garros pela primeira vez foi alucinante, de ficar de queixo caído literalmente. Eu tinha 18 anos. Wimbledon também. Para um tenista, jogar no All England Club é o mesmo que um jogador de futebol jogar no Maracanã.

Adriano e GugaAdriano e Guga nas manchetes dos jornais na época 

Você se destacou como o melhor juvenil brasileiro e o segundo melhor juvenil do mundo quando era treinado por Paulo Cleto. Depois disso, já como profissional, venceu Gustavo Kuerten, campeão de Roland Garros na época, num torneio realizado na Sociedade Harmonia de Tênis em 1998. Como foi essa experiência? Teve um gostinho especial? E o pedido de autógrafo ao Guga logo após a partida?

Adriano - A vitória aconteceu no Campeonato Brasileiro de Profissionais, evento exibição realizado no Harmonia, que reunia os 8 melhores brasileiros da ATP na época. O pedido de autógrafo foi uma forma de não parecer que, por ter vencido o Guga, eu já me considerava um Top 10. Sempre soube o meu lugar e as minhas capacidades. Depois dessa vitória, tive um evolução na carreira. Eu era apenas o 330º do mundo naquele dia e três meses depois já estava perto dos 140. O resultado me deu muita confiança e também passei a receber apoio financeiro, o que acabou fazendo toda a diferença. Isso mudou a minha vida, mas eu não queria passar por ali sem deixar uma mensagem de humildade, apesar de que o Guga é mais novo e, quando éramos juvenis, ele sentava pra me ver jogar (humildade Adriano...rsrsrs). 

Como foi sua participação na Copa Davis? Qual a importância do torneio?

Adriano - Nunca joguei uma partida oficial de Copa Davis, mas estar na equipe era o máximo. Na época que eu estava em condições de jogar, o Brasil costumava priorizar os jogadores especialistas no saibro, o que não era meu caso. Eu era lembrado naquelas ocasiões onde seria quase impossível ganhar, do tipo jogar contra a Austrália na grama e fora de casa. Nessa superfície ou nessas condições o nosso time sofria por não ter mais jogadores que sacavam e voleavam, como era o meu caso.

Qual a importância da moda no tênis, tanto para homens quanto mulheres? É uma marca registrada e tradicional do esporte?

Adriano - Acho fundamental! Essa é uma das tradições que o tênis faz questão de manter. Não basta jogar bem, tem que estar bem vestido, dentro e fora da quadra. O tenista viaja muito, quase o ano todo, só não se atinam aqueles muito desencanados mesmo.

Como era o seu estilo nas quadras? Era vaidoso?

Adriano - Eu sempre fui vaidoso, mas não tanto como um francês (rs). Sempre usei roupas de patrocinadores. Às vezes eram bacanas, outras nem tanto, mas munhequeiras e faixas de cabeça eu não abria mão, achava que eram acessórios que complementavam qualquer figurino.

Adriano modaA marca Fred Perry era uma das preferidas de Adriano, na foto com uma camisa polo da grife britânica e shorts Adidas

Quando você sentiu que era hora de parar?

Adriano - Na verdade eu não quis parar, fui obrigado. Tive uma lesão no ombro quando tentava uma investida nas duplas, mas confesso que a falta de torneios que me deixassem mais no Brasil e uma pequena síndrome do pânico me limitavam. Chegou um momento em que a loucura era tão grande que todas as vezes que subia em um avião eu achava que iria cair, deveria ter buscado um tratamento. Um dia, eu estava nos Estados Unidos, perdi pro Alex Obrien que na época só jogava duplas e resolvi parar.

Como foi a decisão de transformar o tênis em profissão, especialmente num país onde o esporte é considerado "elitista" e não há muito apoio aos jovens que sonham em se profissionalizar?

Adriano - Eu nunca me imaginei fazendo outra coisa, sempre quis estar nesse meio e sabia que poderia viver disso. Muitas pessoas sabem que ser médico no Brasil também é complicado e, mesmo assim, continuam formando-se médicos aos montes. É uma questão de vocação. Quando é assim, fazemos vista grossa para as dificuldades e seguimos em frente.

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E como foram as parcerias com Flavio Saretta, Ricardo Melo e Thomaz Bellucci? Quais momentos importantes te marcaram como treinador de cada um deles?

Adriano - Minha relação com o Bellucci foi quando ele tinha 15 anos. Não era um jogador que me enchia os olhos e acabei não tendo tanta oportunidade de trabalhar com ele. Tínhamos uma equipe grande e ele era um dos mais novos, daqueles que ficavam nas quadras dos menores, onde eu atuava pouco. Com o Ricardo também foi rápido. Consegui um patrocinador e montei um time, mas por conta de vaidades e detalhes financeiros esta equipe acabou não indo tão longe. Me arrependo de não ter ficado com ele, independentemente deste patrocínio. Com o Saretta foi bem mais intenso. Fui contratado para viajar com ele. Quando iniciamos ele era 380 do ranking e, em três meses de trabalho, ele subiu para 150. Depois com o João Zwetsch (atual técnico da Copa Davis e meu ex-técnico), o Flávio já estava entre os 100 melhores.

Em 2002 você voltou ao circuito profissional para jogar duplas. Como surgiu essa decisão e o que motivou seu retorno?

Adriano - Haveria uma série de Challengers no Brasil e eu acabava de me “divorciar” do Saretta. Ainda tinha algum ranking porque, além de ser o travelling coach dele, eu também jogava duplas com o Flávio. O Daniel Melo, irmão e hoje técnico do Marcelo Melo, me convidou pra jogar a primeira edição do Sauipe. Fomos campeões e só naquele ano fiz outras 8 finais: com o Daniel, o Prieto e outros. Quando vi, estava como 120 no ranking novamente, mas com meu ombro moído. Aí disse: chega desse sofrimento, vou viver uma vida normal.

De vez em quando dá vontade de entrar na quadra e mostrar como é que se faz?

Adriano - Até dá, mas minhas costas, meus joelhos, meus ombros e meu cotovelo doem muito... Ah, esqueci de dizer do quadril que também incomoda um pouco.

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Hoje você atua como técnico, em Ribeirão Preto, e já foi treinador da categoria juvenil da CBT (Confederação Brasileira de Tênis). O que você vê nos jovens atletas brasileiros e como imagina o futuro dos nossos tenistas? O que mudou da sua época para os dias atuais?

Adriano - Hoje contribuo pouco com a CBT. Já estive em comissões infanto-juvenis, já levei um time muito bom a um mundial na Espanha e conquistamos um resultado histórico (terceiro lugar), mas acabei me distanciando um pouco do alto rendimento. Hoje me dedico mais a um trabalho de formação com meninos e meninas mais novos. Também busco nos que já são um pouco mais velhos, um conceito mais educativo, que usem o tênis para abrir portas e situações que te fazem crescer, nunca deixando de lado a competição. Acredito que a competitividade é um fator preponderante para a boa formação do indivíduo. 

Você também promove muitas clínicas de tênis. Quais os principais objetivos e as vantagens de participar de um treinamento como este?

Adriano - Os objetivos são: melhorar a técnica dos golpes com exercícios e análises biomecânicas; desenvolver e aprimorar técnicas de deslocamento em quadra; criar estrutura tática básica por meio de porcentagem; implantar roteiros de conduta pré e pós-treino, melhorando a consciência corporal e diminuindo riscos de lesão; incentivar a atitude esportiva positiva com automotivação e criar uma preparação completa para torneios promovidos após a clínica.

Se tivesse que dar 3 conselhos para quem quer se tornar um jogador profissional, quais seriam?

Adriano - Olha, são tantos conselhos...Mas o básico e indispensável é que tenha talento e muita disciplina para se tornar um verdadeiro atleta logo cedo. Aos 14/15 anos o menino ou a menina já precisam demonstrar que realmente querem, abrindo mão dos maiores prazeres da vida em nome de um físico cada dia mais forte e de uma cabeça também. Ter pessoas boas por perto, que entendam de tênis e que estejam disponíveis pra pegar as malas e viver o sonho junto com você. Também não poderia deixar de citar as 3 principais razões para o fracasso, sem sequer iniciar a carreira: namoradinha/o a tira-colo aos 15 anos, mãozinha dada, noivadinho, isso tudo te faz andar pra trás, uma pessoa dessa idade não toca as duas coisas juntas. Festas e baladas. Os que adoram uma farra estão completamente fora do jogo porque não renunciam a nada, não fortalecem nem o físico e nem a cabeça. E, por último, um conselho de pai: não beba, não fume e não use drogas. Isso é o que te distanciará dos seus sonhos.

 adriano kirmayr finoAdriano com os amigos Carlos Kirmayr e Fernando Meligeni

Adriano ainda se dedica ao tênis: é diretor da A.F. Sports, que gerencia o treinamento competitivo do Tennis Country Club e do Centro de Tênis Moura Lacerda/Adriano Ferreira, ambos em Ribeirão Preto-SP.

Fotos: Arquivo Pessoal

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